CEA Mandembo
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Energia de Matriz Colonial ou Energia de Verdade?

Por que a Transição Energética precisa Mudar de Rumo

Energia de matriz colonial ou energia de verdade? Por que a transição energética precisa mudar de rumo. Energia não é apenas tecnologia. Energia é política.

Energia não é apenas Tecnologia. Energia é política.

Nos últimos anos, especialmente no contexto da crise climática e das disputas em torno do chamado desenvolvimento sustentável, a transição energética passou a ocupar o centro dos debates públicos. 

Energia solar, eólica e hidrelétrica são frequentemente apresentadas como soluções inevitáveis. 

Mas, existem perguntas que quase sempre ficam de fora: energia para quem? 

Decidida por quem? 

Às custas de quem? 

E se não aceitarmos que nem toda energia renovável é, automaticamente, justa e que nem toda energia “verde” está, de fato, a serviço da vida? 

O que isso muda na forma como olhamos para esse debate?

O que é Energia de Matriz Colonial

Energia de matriz colonial ou energia de verdade? Por que a transição energética precisa mudar de rumo. Energia não é apenas tecnologia. Energia é política.

Antes de avançar, é importante explicar o conceito que utilizamos nesta matéria, no âmbito do CEA Mandembo: energia de matriz colonial. Inspirado e elaborado em diálogo com o pensamento de Nêgo Bispo, a quem este texto também presta homenagem, o termo nos ajuda a nomear um modelo de produção energética que, embora substitua os combustíveis fósseis por fontes renováveis, preserva intacta a lógica colonial na qual, historicamente, organiza o desenvolvimento no Brasil. 

Trata-se de uma lógica baseada na concentração de poder, na expropriação de territórios e na subordinação das populações que neles vivem.

Nêgo Bispo nos ensina que a colonização não deve ser entendida apenas como um evento do passado, mas como um modo contínuo de organizar o mundo, os territórios e as relações. A partir dessa compreensão, torna-se possível perceber como muitos projetos energéticos seguem tratando os territórios como espaços vazios a serem ocupados,

explorados e controlados, e não como lugares de vida, memória, ancestralidade e relação.

É desse enraizamento colonial que emerge o que chamamos de energia de matriz colonial: uma forma de produção energética que substitui tecnologias e fontes, mas mantém inalteradas as relações de poder que estruturam o modelo energético. Instalada em nome do progresso, essa energia ocupa terras produtivas, desloca comunidades, altera paisagens e ecossistemas, impõe decisões sem diálogo e converte bens comuns em ativos financeiros. 

O sol, o vento e a água deixam de ser reconhecidos como elementos vivos, compartilhados e essenciais à reprodução da vida, para serem apropriados como recursos estratégicos, submetidos à lógica do mercado e do lucro.

Comida de Verdade, Energia de Verdade

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No campo da segurança alimentar e nutricional, aprendemos a diferenciar comida de verdade da comida ultraprocessada. 

A primeira nutre, fortalece e respeita os ciclos da vida. A segunda é produzida para o mercado: adoece corpos e rompe a conexão entre quem produz, quem consome e os territórios de onde o alimento vem. 

Com a energia elétrica acontece algo muito semelhante.

A energia colonial funciona como uma energia ultraprocessada: padronizada, concentrada e distante das pessoas e dos territórios onde é gerada.

Já a energia de verdade é pensada a partir das pessoas, integrada ao território, voltada à autonomia e comprometida com a justiça social e ambiental.

Hidrelétricas, Eólicas e Solares: quando o verde não basta

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Grandes hidrelétricas seguem sendo apresentadas como energia limpa, mas esse discurso oculta o que de fato representam. Trata-se de um modelo baseado em megaprojetos, obras bilionárias e forte concentração de poder econômico. 

O represamento de rios destrói ecossistemas inteiros, altera regimes hídricos e compromete a pesca, a agricultura e o modo de vida de populações ribeirinhas, indígenas e tradicionais.

Classificadas como “energia limpa” por utilizarem a água e emitirem menos carbono na geração, as grandes hidrelétricas escondem um modelo baseado em megaprojetos, expulsão de comunidades e apropriação privada de bens comuns, sendo consideradas limpas nos indicadores técnicos, mas são profundamente injustas na realidade dos territórios. 

Ou seja, “renovável” virou um conceito tecnocrático que descreve apenas a reposição física da fonte, mas ignora as condições sociais, territoriais e ecológicas da renovação.

Parques Eólicos no Nordeste

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No Nordeste, a expansão acelerada de parques eólicos e solares revela impactos que raramente aparecem nos discursos oficiais da chamada transição energética. Torres eólicas são instaladas muito próximas às casas, provocando tremulação constante, rachaduras nas paredes, ruídos permanentes e uma alteração profunda da vida cotidiana das comunidades. Ao mesmo tempo, extensas áreas deixam de cumprir funções produtivas e sociais para se tornarem territórios voltados exclusivamente à geração de energia para o mercado.

Nos grandes parques solares, soma-se outro problema: a degradação do solo. A retirada da vegetação e a cobertura contínua por placas modificam a incidência de luz, a temperatura e a umidade, afetando a vida que existe abaixo da superfície, como microrganismos, insetos, raízes e ciclos ecológicos importantes. O resultado apresenta solos empobrecidos, com menor capacidade de regeneração e de uso futuro.

Em ambos os casos, os contratos firmados com moradores ou proprietários de terra são profundamente desiguais. Não informam de forma adequada os impactos que surgem após a instalação, não preveem os danos reais e não oferecem mecanismos efetivos de reparação. O contrato, assim, não protege quem vive no território; apenas legaliza o empreendimento, enquanto a vida das comunidades é impactada de forma duradoura. Ou seja, o problema não é o vento, o sol ou a água, mas é o resultado dos modelos.

O Silêncio sobre os Resíduos e a Dependência Tecnológica

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Outro tema pouco debatido na transição energética é o destino dos resíduos tecnológicos gerados pelas fontes renováveis, como placas solares ao final da vida útil, conversores/inversores, equipamentos eletrônicos e baterias. 

No Brasil, esses materiais estão formalmente abrangidos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), que prevê a responsabilidade compartilhada e a adoção de sistemas de logística reversa. 

Na prática, porém, ainda faltam políticas públicas específicas, metas obrigatórias e infraestrutura adequada para enfrentar, em larga escala, o ciclo completo desses equipamentos, sobretudo no caso dos painéis fotovoltaicos.

Embora esses resíduos estejam formalmente abrangidos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, o país ainda não dispõe de regulamentações específicas, metas obrigatórias e instrumentos operacionais capazes de dar conta, em escala, da reciclagem de painéis fotovoltaicos. Isso abre caminho para a formação de um novo passivo ambiental associado à própria transição energética.

Valor de Mercado incentiva Reciclagem

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A situação contrasta com a das baterias de chumbo-ácido, conhecidas como baterias estacionárias. 

Por conterem materiais de alto valor econômico, essas baterias raramente se transformam em lixo abandonado, sendo reinseridas no circuito produtivo por meio da revenda e da reciclagem. 

Essa circularidade, no entanto, não decorre de consciência ambiental, mas do valor de mercado dos materiais que as compõem.

Esse quadro deixa evidente que o desafio dos resíduos na transição energética não é essencialmente técnico, mas político e econômico. 

Onde há valor reconhecido, há reaproveitamento; onde não há, os custos e os danos tendem a ser socializados. 

Energia limpa não pode significar lixo invisível e nem dependência tecnológica permanente, especialmente quando envolve materiais críticos e potencialmente tóxicos.

Energia, Água e Saneamento: políticas de Estado, não Mercadorias

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À medida que a população mundial cresce e a demanda por energia aumenta, torna-se evidente o esgotamento de um modelo que trata necessidades básicas como oportunidades de negócio. 

Energia elétrica, água e saneamento não podem ser submetidos à lógica da privatização e do lucro, porque são condições essenciais para a vida, a saúde e a dignidade.

Quando o Estado abdica de seu papel como provedor e regulador desses serviços, os resultados revelam exclusão, tarifas elevadas e aprofundamento das desigualdades. 

Uma transição energética verdadeira exige políticas de Estado, de longo prazo, comprometidas com o acesso universal, a justiça social e a sustentabilidade. 

Necessidades essenciais não podem ser tratadas como artigo de luxo. 

O futuro só será possível se colocarmos a vida e não o mercado no centro dos debates e das decisões.

Casa MultiVolts tem Energia de Verdade em Escala Humana

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A Casa MultiVolts, iniciativa do CEA Mandembo, nasce como uma resposta concreta à energia de matriz colonial que marca grande parte da chamada transição energética no Brasil. 

Em diálogo com o pensamento de Nêgo Bispo e com a crítica à energia colonial desenvolvida nesta matéria, o projeto é fundamentado como um protótipo político, pedagógico e prático de outro modo de produzir, gerir e viver a energia.

Pensada em escala humana, a Casa MultiVolts demonstra que é possível organizar a energia elétrica de forma integrada à vida cotidiana, ao território e às necessidades reais das pessoas. 

Trata-se de uma solução multivolts, em corrente contínua, eficiente e segura, capaz de operar com diferentes tensões, reduzir perdas, ampliar a autonomia e fortalecer a independência energética, sem subordinar a casa e seus habitantes a sistemas centralizados, caros e vulneráveis.

A Casa MultiVolts é Criativa, Adaptável e Replicável

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Mais do que um experimento técnico, a Casa MultiVolts expressa uma inversão de prioridades. Em vez de grandes empreendimentos que concentram decisões, impactos e renda, o projeto aposta em soluções locais, sustentáveis e econômicas, voltadas para residências, comunidades e equipamentos públicos e sociais. Produzir a energia onde é consumida reduz a dependência de infraestruturas distantes, amplia a resiliência dos territórios e rompe com a lógica que transforma bens comuns em ativos controlados por poucos.

Ao mesmo tempo, a Casa MultiVolts é criativa, adaptável e replicável. Seu desenho permite adequações a diferentes contextos territoriais, climáticos e sociais, favorecendo a disseminação do modelo sem impor uma forma única. Como proposta pedagógica, torna visível o funcionamento da energia, estimulando a compreensão crítica, o aprendizado coletivo e a formação de uma relação mais consciente entre tecnologia, território e vida.

Inovadora, não apenas pelo arranjo técnico, mas pela lógica que a sustenta, a Casa MultiVolts aponta para uma transição energética que não se limita à troca de fontes, mas que transforma a forma como decidimos, compartilhamos e nos relacionamos com a energia. 

Trata-se, portanto, não de uma tecnologia de futuro distante, mas de uma escolha política no presente, que recoloca a energia a serviço da vida e da autonomia.

Chamado do CEA Mandembo à Ação Coletiva

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A pauta da energia elétrica não pode seguir separada das lutas pela terra, pela agroecologia, pela soberania alimentar e a dignidade no campo e na cidade. Produzir alimento, cuidar do território e garantir a vida exige energia.

O modo como a energia é gerada, distribuída e controlada define quem vive com autonomia e quem permanece subordinado.

Por isso, o CEA Mandembo chama os movimentos sociais, coletivos, organizações populares e fóruns que atuam nessas frentes a incorporar a pauta energética como dimensão estratégica de suas lutas. 

Colocamos nosso espaço, nossas experiências e a Casa MultiVolts a serviço da construção coletiva de alternativas energéticas enraizadas nos territórios, capazes de dialogar com a agroecologia, com a economia solidária e com os direitos básicos à vida.

Propomos que o CEA Mandembo atue como espaço de encontro, formação e experimentação, fomentando debates, oficinas, intercâmbios e projetos-piloto que ajudem a traduzir a questão energética em prática social concreta.

Integrar a energia às pautas já existentes não é um acréscimo secundário. É condição para sustentar a vida com dignidade. 

Energia, assim como alimentos e água, é base da vida, e pensar isso coletivamente é tarefa urgente do nosso tempo.